As mãos que criam
O Galpão das Paneleiras de Goiabeiras abriga diversas histórias. Conheça e saiba como algumas das mãos responsáveis pela produção das panelas de barro chegaram até lá.
DAYANE PARADIZZO

Foto: Julia Eugênia Guelli
Paneleira efetuando a etapa da raspagem. Os movimentos rápidos permitem uma produção ágil e, em um piscar de olhos, uma pilha de panelas já foi criada.
Artistas. É assim que se definem aqueles que fazem parte da Associação das Paneleiras de Goiabeiras. Sendo, aproximadamente, 40 paneleiras que trabalham no galpão e incontáveis que realizam a tarefa em suas casas, elas colocam a mão na massa - ou, podemos dizer, no barro - e todos os dias produzem o artefato que é um dos símbolos da identidade cultural capixaba.
É notável, dentre os que realizam os processos de produção das panelas, que a maioria é formada por mulheres. Mesmo assim, andando pelo galpão, encontramos também homens confeccionando o instrumento.
Ao conversar com as artesãs, não demora muito para perceber que aquele ofício é algo que se passa de geração em geração, sendo possível ver também crianças já acompanhando os pais no local de trabalho. Este é, também, um dos principais fatores que fazem com que a cultura indígena se mantenha viva dentro do galpão e no trabalho destes artistas, como as próprias paneleiras destacam.
Entre filhos que ingressaram através de suas mães e netos que conheceram a arte através de suas avós, conheçam, a seguir, algumas personagens e as histórias de como foram conquistadas pela panela de barro.
Tânia Maria Lucidato
Trabalha como paneleira há 42 anos.

Foto: Sofia Peres
Aos 56 anos, Tânia é um exemplo de paneleira que segue a função por conta de seus familiares. Natural do bairro Goiabeiras, ela faz parte da terceira geração que trabalha com a panela de barro em sua família. A avó foi a primeira, seguida pela mãe e pelas tias. Atualmente, é Tânia quem realiza o ofício e ainda conta com a companhia de seu filho, mostrando que a tradição continuará perpetuando-se.
Paneleira desde os 15 anos de idade, ela explica que começou a se interessar pela produção das peças ao observar o processo de confecção e pedia ajuda às tias para aprender a fazê-las. Tânia afirma que ama ser paneleira e, apesar de já ter realizado outras ocupações, não pensa em deixar o galpão: “Já fiz outras coisas, trabalhei fora, fiz cursos, mas nunca larguei as panelas. É como uma terapia para nós”.
Evanilda Fernandes Correia
Trabalha como paneleira há 27 anos.
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Foto: Sofia Peres
Evanilda, 57, também chegou ao galpão por meio de sua família. Atualmente, ela e a irmã realizam a produção das panelas de barro, sucedendo a mãe. Evanilda afirma que, no início, não se interessava pelo trabalho: “Nunca tive esse sonho de ser paneleira. Sonhava em trabalhar fora, cheguei a ir para o Rio de Janeiro e fui cozinheira dos Castello Branco”, explica a artesã, completando que recorreu às paneleiras por necessidade: “Acabei desempregada e tive que voltar para Vitória. Então, o início dessa minha relação com as panelas foi por conta do sacrifício de arrumar um emprego, de procurar e não ter”, finaliza.
A artesã garante que aprendeu a mexer com o barro observando a mãe e visitando diariamente as paneleiras, conhecendo e trabalhando cada etapa de produção aos poucos. Hoje, ela domina o manuseio da matéria-prima e não se limita às panelas: “Se eu quiser uma chaleira, para colocar no fogão e ferver uma água, eu faço”.
Ela afirma também sua satisfação em ver que, atualmente, o trabalho com as panelas de barro é divulgado pela mídia e, consequentemente, valorizado pelos capixabas e pelos turistas. Segundo a paneleira, o sentimento antigamente era de que o ofício que realizam era ocultado e isso mudou. Evanilda finaliza dizendo que, para ela, é uma honra saber que consegue transformar uma pelota de barro em utensílios que podem ser usados no cotidiano das pessoas.
Lucy Barbosa Sales
Trabalha como paneleira há 22 anos.

Foto: Sofia Peres
Diferente das outras duas, Lucy, 77, não chegou às paneleiras por meio de seus familiares: “Aprendi com minha vizinha. Passávamos muito tempo juntas e um dia ela perguntou se eu queria aprender a fazer a panela. Eu disse que queria porque gostava muito de mexer com argila, aí ela me ensinou. Mas foi muita luta para eu aprender”, afirma a artesã. Ela explica que, inicialmente, seus moldes davam errado, mas a vizinha insistia. Até que ela conseguiu produzir uma “panelinha” - chamada de pimenteira - e, aos poucos, aprendeu a fazer de tamanhos variados. As primeiras “panelinhas” foram compradas por um morador de Guarapari, segundo ela, e este foi o impulso para continuar.
Apesar de não fazer parte do grupo de pessoas que ingressou por meio de gerações, Lucy garante que não houve impasses ao entrar para as paneleiras. Ela afirma que a ideia foi bem recebida tanto por quem já trabalhava no galpão quanto pela própria família: “Meus pais, inclusive, quiseram aprender a fazer panela, mas no final só eu continuei”, diz.
Questionada sobre a perpetuação da cultura nas famílias, a artesã acredita que a tradição permanecerá sendo passada através de gerações. Segundo ela, até bisnetos de paneleiras já frequentam o galpão para aprender o processo para produzir as panelas.
Lucy finaliza afirmando que adora o trabalho que exerce e que a panela de barro representa tudo em sua vida.