Do barro à panela
Desde a retirada do barro à modelagem, queima e pintura, todos os passos são imprescindíveis para que a panela seja conservada na cultura capixaba.
SOFIA PERES

Foto: Julia Eugênia Guelli
Com barro ainda molhado, demorará pelo menos 24 horas para a peça secar por completo e ser finalizada.
"Os processos continuam a mesma coisa, o trabalho continua o mesmo". Esta afirmação feita pelo paneleiro Ascler Fernandes Vasconcelos, 29, reforça a tradição milenar, na cultura capixaba, da produção de panelas de barro. A técnica de origem indígena ainda é utilizada na confecção, e, por isso, a modelagem manual, a queima a céu aberto e utilização da tinta de tanino permanecem essenciais para o surgimento do instrumento que dá vida à culinária capixaba.
Tudo começa no Vale do Mulembá, localizado no bairro Joana D'Arc, onde o barro, essencial para a montagem da panela, é extraído. A partir daí, a matéria-prima é levada ao galpão das paneleiras, em Goiabeiras, para que as artesãs comprem seu material. A escolha e coleta do insumo devem ser cuidadosas e respeitosas com o meio ambiente. Depois de comprada, a argila deve ser guardada fora do sol, para que não resseque e perca sua qualidade – como ressalta, a partir de uma analogia, a paneleira Evanilda Fernandes Correia, 57, "O nosso barro é igual cabelo: quanto mais tira, mais ele cresce."
Em relação à produção, existem oito passos indispensáveis, que demoram, em média, sete dias para serem finalizados. A primeira etapa é a retirada e venda do barro, como descrito acima. O próximo passo é amassar e/ou escolher o material para que todas as impurezas, pedras e raízes sejam retiradas. Em seguida, o trabalho na panela é iniciado.
A modelagem da base, sem os cabos da peça, é feita no primeiro dia. No segundo dia de confecção, o molde é finalizado e o processo de raspagem começa, feito com um utensílio chamado arco. Após este momento, os poros da panela, provenientes da raspagem, são fechados com uma pequena faca. Depois de seca, é feito o polimento da peça com a pedra de rio, mais comumente chamada de seixo ralado. Por fim, a panela vai para a queima, que ocorre a mais de 900ºC.
A panela, primeiro, é queimada até ficar em brasa. Depois, com uma vassourinha de muxingá, é tingida pelo tanino ou casca do mangue-vermelho — árvore encontrada no manguezal vizinho da associação. Neste passo, recebe a coloração escura e resistência que lhe são características.
Foto:s Julia Eugênia Guelli e Sofia Peres
O fogo constrói. Diferente do que estamos acostumados a pensar, as chamas podem não só destruir, como também estruturar. Parte indispensável para a finalização da panela é a queima, marcada pelas chamas laranjas, a fumaça azulada e as cinzas que se espalham no ar.
O mangue-vermelho é uma espécie de árvore típica de manguezal. Seu nome tem ligação com o fato de sua casca, ao ser raspada, apresentar uma coloração avermelhada típica. Outra particularidade está no sistema de suas raízes, que formam arcos e brotam dos próprios troncos e galhos. Para obter o tanino, que tinge as panelas de barro na fase de finalização, é preciso bater na casca e soltá-la do tronco. Porém, o paneleiro Ascler Fernandes Vasconcelos, 29, destaca que neste processo não se deve rodear a árvore. Somente um lado pode ser descascado para que a cicatrização ocorra e o ecossistema do manguezal não seja prejudicado. Após a retirada da madeira, suas lascas são picadas até virarem farelo e depois são colocadas de molho em água limpa por três dias. Em seguida, a tinta está pronta para uso.
Fotos: Sofia Peres
Apesar da produção ter sido mantida por várias gerações, a inovação nas panelas está presente, predominantemente, em suas tampas e alças. Peixes, caranguejos, folhas, texturas e palavras tomam o lugar do tradicional visual da peça.
A fabricação é detalhada e cuidadosa, por isso os produtores passam por todas as etapas de criação de suas panelas, desde a compra e "limpeza" do barro até a queima e venda. Dito isso, alguns aspectos — como possíveis erros e a inovação nas decorações — são evidenciados pelos artistas em questão. Segundo Ascler, a maneira de manusear o produto é essencial. Se ele secar rapidamente no sol, por exemplo, fica mais fraco, portanto o certo é secá-lo na sombra.
Já João Farias de Souza, 56, ressalta que foi um dos precursores na modernização das panelas: “Fiz um trabalho revolucionário na associação, mudando o cabo tradicional que vemos. Também criei um modelo diferente com um peixe na tampa. Hoje existem panelas com vários estilos de cabo.".
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Foto: Sofia Peres
Como pontuado pelas artesãs, as panelas devem secar na sombra, evitando contato direto com o sol, que causa o enfraquecimento do barro.
Instrumentos de criação
Quanto aos utensílios necessários para a produção das panelas, o barro é indispensável, porém não é só isso. A casca da árvore mangue-vermelho e a lenha — usadas para a pintura e a queima, respectivamente — são utilizadas nos processos pós formação estrutural das vasilhas. No entanto, a paneleira Tânia Maria Lucidato, 56, salienta as ferramentas necessárias para a iniciação e finalização durante a criação das peças: "Nós usamos o barro e a tinta do manguezal. Ainda tem a faca, o arco — que é um pedaço de metal — e a espátula. Além da pedra do rio, que é para alisar a panela."
Para finalizar, em relação à produção diária, Evanilda Fernandes Correia, 57, reforça que a fabricação deve ser sempre cuidadosa, já que as panelas não podem acumular entre uma fase e outra, pois, se acontecer, serão dois serviços perdidos. Ela ressalta, ainda: "Quando estou com vontade, faço até 50 das pequenas. Quando não dá, faço 20 ou 10, no máximo."
Foto:s Julia Eugênia Guelli
Pegajoso e áspero ou liso e suave. O barro pode ser descrito de várias maneiras, mas é possível perceber, durante a produção da panela, que pode passar de rústico para perfeitamente moldado com poucos passos. Pelas mãos ágeis e precisas das paneleiras, a peça se transforma em uma circunferência perfeita.
É inegável que as paneleiras de Goiabeiras são fundamentais para a perpetuação da cultura no estado. Contudo, como toda tradição, os costumes antigos devem se relacionar com os novos. Assim, a associação vem passando por renovações em relação às tarefas e produções, mas sem perder sua verdadeira essência de comportamentos enraizados.
Joana D'arc e Goiabeiras, dois bairros importantes para o processo de produção da panela de barro. Neste mapa você poderá percorrer o trajeto completo da produção da panela de barro.











