Tempos Modernos
Apesar da confecção da panela ser realizada seguindo a tradição há mais de quatro séculos, algumas mudanças no processo e nas relações institucionais foram feitas.
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JULIA EUGÊNIA, DAYANE PARADIZZO E SOFIA PERES

Foto: Julia Eugênia Guelli
Nos últimos anos, o Galpão das Paneleiras passou por mudanças,. Entre elas está a entrada de homens na confecção da panela de barro.
A panela de barro, um marco na cultura do Espírito Santo, é comumente ligada à moqueca capixaba, servindo como um meio para a sua preparação e apresentação. Desenvolvida por índios, e popularizada por colonizadores portugueses e africanos escravizados, a técnica empregada em sua criação é considerada um saber. Ou seja, os artistas que a confeccionam possuem conhecimentos específicos para produzi-la.
Apesar de ser um ofício associado, majoritariamente, às mulheres, a realidade atual é bem diferente do que era há centenas de anos - e até de algumas décadas atrás. Os homens já não têm a exclusiva função de extratores, principal matéria-prima para que a produção do objeto se torne viável. Hoje, eles também são responsáveis pela confecção da panela.

Foto: Sofia Peres
Paneleiro e escultor, João Farias de Souza é um dos homens presentes no galpão. Ele foi o responsável por introduzir mudanças estilísticas na tampa da panela.
A artesã Tânia Maria Lucidato, 56, confirma que, antes, somente mulheres fabricavam as peças, enquanto os homens se limitavam a outras atividades envolvendo as panelas: “Antigamente, os homens iam para o barreiro, tiravam o barro, tiravam a tinta, enquanto as mulheres produziam”, explica.
E dessas mãos masculinas tingidas de vermelho, cujo responsável é o tanino — que dá a coloração escura aos utensílios —, surgem diversos tipos de caldeirões, caçarolas, vasilhas, entre outras peças. São homens de todas as idades que seguem os passos de suas mães, avós, tias e bisavós, dando continuidade à técnica que atravessa gerações.
É o caso de Ascler Fernandes Vasconcelos, 29, que largou o emprego de entregador de farmácia e resolveu virar paneleiro. Ascler assumiu a mesma função da avó Eunete — que, por sua vez, aprendeu com a mãe. “Minha bisavó passou para a minha avó e para as filhas também, e minha avó passou para mim. É uma coisa que já está no sangue.”, conta.
Apesar das inovações surgidas com o passar dos anos, os artesãos apontam que o descaso ainda é um dos principais problemas enfrentados por eles. Segundo Ascler, falta mais apoio da Prefeitura de Vitória, inclusive no que diz respeito a melhorias estruturais do Galpão das Paneleiras, onde os profissionais criam as peças e as expõem para venda.
“Esse galpão era de madeira e o refizeram todo em aço. Foi um pouco das melhorias feitas, mas eu acho que poderiam fazer muito mais. Aqui é conhecido mundialmente”, desabafa Ascler, que conclui: “Vem turistas do mundo todo aqui, então poderia, por exemplo, ter um restaurante próximo.”.
Segundo Berenice Correia Nascimento, 63, presidente da Associação das Paneleiras de Goiabeiras, a parceria com a instituição tem seus altos e baixos. “Quem faz tudo aqui para nós é a prefeitura. O prédio, o local onde o barro é retirado e o caminhão que traz a lenha, são deles, por exemplo", diz Berenice, que completa: “O que gostaríamos é que eles nos atendessem quando procuramos, pois demoram muito.”

Foto: Julia Eugênia Guelli
A produção em larga escala faz com que inúmeras panelas e tampas sejam vistas dentro dos boxes individuais de cada paneleira.
Percebemos, também, durante a apuração da reportagem, que há poucas informações sobre as paneleiras no site da Prefeitura de Vitória. As citações que envolvem as artesãs não possuem, na maioria das vezes, mais de um parágrafo. Para Berenice, o volume de conteúdos sobre elas deveria ser maior. “Eles acham que não precisa de divulgação por nós já sermos muito conhecidas”, explica. Procurada pela reportagem, a Companhia de Desenvolvimento, Turismo e Inovação de Vitória (CDTIV) que - segundo Berenice - é a empresa municipal responsável pelas paneleiras, não retornou contato.
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Diferente da Prefeitura, as paneleiras contam que possuem um ótimo relacionamento com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Espírito Santo (Iphan/ES), sendo constantemente procuradas pelo órgão. O apoio, o fomento às ações que favoreçam a valorização das paneleiras e a manutenção das atividades dos patrimônios imateriais fazem parte do Plano de Salvaguarda do Instituto.
No Espírito Santo, o Instituto é marcado pelo pioneirismo no registro de bens imateriais. Em 2002, as Paneleiras de Goiabeiras se tornaram o primeiro patrimônio imaterial registrado no Brasil e no estado. Para isso, foi desenvolvido um projeto metodológico para efetuar o levantamento e a sistematização dos conhecimentos sobre a produção das panelas.
Para a paneleira Evanilda Fernandes Correia, 57, o registro do Iphan foi uma benção. “Nós éramos escondidas, mas hoje somos divulgadas. Ficamos mais fortes e confiantes depois do reconhecimento”, afirma ela, que também conta que os artistas viajam pelo Brasil divulgando a panela de barro em eventos de artesanato: “Já fomos, por exemplo, para o Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza.”.
Outro grande problema, que vem sendo enfrentado atualmente, é a pandemia do novo Coronavírus. Por conta das restrições impostas pelas autoridades, o Galpão das Paneleiras teve de ficar fechado durante quatro meses - de março até julho de 2020. Mesmo depois de reaberto, o local passou a funcionar em horário especial e a frequência de visitantes foi reduzida.
Diante disso, e por ser inviável o deslocamento das matérias-primas, as artesãs ficaram impossibilitadas de produzir suas panelas e, consequentemente, tiveram sua renda afetada. Assim, recorreram ao auxílio emergencial como fonte de sustento. A presidente Berenice correu atrás, também, de cestas básicas para ajudá-las.
Questionadas sobre a sensação de ficarem por tanto tempo afastadas do que mais gostam de fazer, a resposta foi unânime: saudade “Sinto saudade do barro. Isso aqui é terapia pra gente também. É muito bom!”, afirma a paneleira Tânia.
Apesar das dificuldades, esperamos que passado, presente e futuro continuem se encontrando nas mãos hábeis dos artesãos, modelando e abrindo espaço para que o saber dos antigos povos nativos do Espírito Santo permaneça vivo e dando frutos.