Quatro séculos de panela
De origem indígena, a panela de barro é um patrimônio capixaba e grande símbolo cultural.
JULIA EUGÊNIA GUELLI

Foto: Julia Eugênia Guelli
Potes e panelas secam antes de serem queimados. As sombras das grades do local, proporcionadas pelo sol da tarde, ressaltam a geometria das peças.
Em movimentos precisos, ágeis e, ao mesmo tempo, delicados, as Paneleiras de Goiabeiras confeccionam diversos objetos, como panelas, travessas, frigideiras e bules, de formas e tamanhos distintos. O ofício, existente há mais de 400 anos, é considerado por elas como um dom, não podendo ser facilmente aprendido por qualquer pessoa.
Transmitida de geração em geração, a técnica tradicional indígena - criada na época do descobrimento das terras brasileiras - é caracterizada pela modelagem manual, pela queima em céu aberto e, também, pela aplicação da tintura de tanino. Paneleira há 40 anos e descendente de índios, Tânia Lucidato, 56, aprendeu com as tias a arte da panela. “Eu comecei observando. Depois, por curiosidade, fui pegando o barro e pedindo às minhas tias para me ensinarem. Aprendi olhando e colocando a mão na massa.”, contou.
Inicialmente, as paneleiras trabalhavam em suas próprias casas, onde eram construídas espécies de “fabriquetas”. Contudo, desde 1987, estão mais organizadas e unidas em uma cooperativa: a Associação das Paneleiras de Goiabeiras. Para realizarem a produção e queima das panelas, o ponto de encontro se tornou o Galpão das Paneleiras, localizado ao redor do manguezal de Vitória. Nos 32 boxes — chamados pelas artesãs de “no meu lugar” —, cada uma produz e comercializa suas próprias peças. A renda obtida é utilizada para a manutenção de suas famílias.

Foto: Julia Eugênia Guelli
Panelas e tampas prontas para serem vendidas no Galpão das Paneleiras de Goiabeiras. Os utensílios são embalados no jornal para não serem danificados.
O local é um ponto turístico visitado regularmente no estado, segundo as paneleiras. Visitantes do Brasil e do mundo podem ir ao Galpão adquirir sua legítima panela de barro capixaba, identificada por um selo oficial – autenticando que as peças foram feitas pelas artesãs de Goiabeiras –, e ainda acompanhar sua produção.
Além de serem um marco da cultura regional, as paneleiras também estão presentes na herança utilitária do estado. As tradicionais Moqueca e Torta Capixaba são servidas nas panelas de barro de Goiabeiras. Os restaurantes são um dos principais compradores da peça ao longo do ano, segundo a paneleira Lucy Barbosa, 77. “Os estabelecimentos encomendam muita panela, a gente faz e manda.”, disse. Para o empresário capixaba e amante de moqueca, Josemar Junior, 34, o prato típico fica ainda melhor com a panela de barro, trazendo um “gosto especial” à comida.
As paneleiras são, ainda, o primeiro registro de patrimônio imaterial – certificado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) - do Brasil e do Espírito Santo, desde 2002. Resultado disso é o livro “Ofício das Paneleiras de Goiabeiras”, que documenta desde a evolução histórica da prática até o modo e as etapas de produção.
A iniciativa do reconhecimento – que expressava uma forma de reivindicação – partiu das próprias paneleiras, em 2001, quando foi apresentado um pedido ao então Presidente do Iphan, Carlos H. Heck. A artesã Evanilda Fernandes Correia, 57, conta que dez paneleiras estavam à frente das negociações para obter o registro: “Elas deram o sangue.”, afirma.
Para comemorar a conquista, criou-se o Dia das Paneleiras de Goiabeiras. A data, celebrada em 7 de julho, entrou oficialmente no calendário de eventos de Vitória, por meio da Lei Municipal n° 3.944 de 1993. A festa tradicional não foi realizada em 2020, devido às restrições impostas pela pandemia do novo Coronavírus. Neste ano, o festejo segue sem confirmação.
A Constituição Federal de 1988, no artigo 216, estabelece que o Patrimônio Cultural Brasileiro é composto por bens materiais e imateriais. Este último, que é o caso das paneleiras, externa-se em saberes, expressões, conhecimentos, representações e técnicas, e é manifestado por grupos - ou indivíduos - que possuem a tradição como pilar e expressam sua identidade social e cultural. Outros exemplos de patrimônios imateriais registrados no Espírito Santo são: o Jongo do Sudeste, o Ofício dos Mestres de Capoeira e a Roda de Capoeira.